Não queremos só bebida

Um dos grandes problemas sociais do Brasil é a falta de reconhecimento do lazer como uma necessidade e direito humano. Titãs já denunciava o conceito torto do governo de garantir apenas comida, bebida e talvez educação.

O ser humano é um ser social por natureza (frase clichê, eu sei), ao não pensarmos no lazer como um direito, criamos uma sociedade doente. Uma sociedade reclusa, com depressão e problemas de ansiedade devido à única meta de vida ser conseguir mais dinheiro ou se suceder profissionalmente. Mas prazer é um problema do governo?

Na Irlanda o lazer não é algo caro, em todos os bairros há um parque, para que as crianças possam brincar, jovens possam ler e idosos possam caminhar. Cinema são tão baratos quanto uma refeição na rua e é possível achar filmes gratuítos ou até mesmos por poucos trocados. Um livro aqui provavelmente vai custar o mesmo preço de um refrigerante.

Isso não acontece somente porque o "custo Irlanda" é mais baixo que o do Brasil. É uma causa cultural. Por causa das demandas populares, o governo tem que promover eventos, manter acesso barato à área de lazer da cidade e incentivar a criação de centros artísticos.

Até acesso a lugares para beber são importantes. É necessário ter lugares acessíveis e seguros para o povo se reunir. Bairros boêmios evitam que o barulho e o consumo de álcool se espalhe pela cidade. O baixo custo de álcool permite a todos o convívio no pub, mas ao mesmo tempo, o preço não permite abusos. Uma pint (UK) de cerveja pode sair de 4 a 6 euros, um preço bem acessível para o salário mínimo (9 euros a hora), mas ainda caro o suficiente para evitar que alguém beba 10 pints numa noite.

O lazer também é importante para a união. Quantas empresas não pagam corridas de Kart ou mesa de sinuca para seus times para integra-los? Na Irlanda, apesar da existência de bares caros, a maioria do povo, independente de classe social, se encontra nos mesmos pubs. Causando uma sensação de integridade. Diferente da clara separação de pobres e ricos que existe no Brasil, onde você provavelmente vai ser julgado até pela roupa que decidir ir.

O mesmo vale para os momentos de lazer. Pobre, rico, branco e estrangeiro, todos estão nos mesmos parques, nos mesmos cinemas e nas mesmas lojas. Não existe essa distinção de shopping de rico e de pobre. Bar para a classe alta, bar de pobre.

No Brasil, se você entra numa loja de grife e não está super bem vestido e transparecendo dinheiro, vai receber um tratamento horrível. Em Dublin, você será bem atendido.

Enquanto no Brasil exigimos de nossos governantes somente uma economia forte ou acesso a comida e saúde, esquecemos que isso é o básico para sobrevivência. Porém não queremos sobreviver, queremos viver. Precisamos seguir mais o modelo europeu, onde há uma grande preocupação com o bem estar da população. Necessitamos de fontes de lazer que acolham à todos.