Irish Vegan Festival, Belfast e o capitalismo

Este final de semana ocorreu em Belfast o Irish Vegan Festival. Um evento para a comunidade vegana da ilha da Irlanda se unir, conversar, comprar e ouvir palestras de ativistas.

O festival em si foi bem simples, algumas barracas vendendo produtos de empresas "grandes" (Lush, por exemplo) e de empresas locais. Produtos "éticos" sendo vendidos em diversas bancas, como jóias éticas, roupas éticas. Camisetas super faturadas, sendo vendidas ali, por conterem logos ligados ao veganismo. Mas hey, são éticas! Seja lá qual for a definição de ética utilizada ali (não possue produtos manufaturados por trabalhadores em condições análogas a escravidão, talvez).

O que me levou a pensar sobre a grande concentração no tema "produto derivado de animais" e não nas causas e consequências. Qual o papel do capitalismo na exploração de animais? Qual o papel dos grandes donos de terra?

Assim como a maior parte dos ativismos atuais, o capitalismo decidiu abraçar a causa ao invés de lutar contra. Como sempre, a regra do mercado é: se tem gente disposto a comprar, porque não oferecer o produto? E como patos, caímos no conto deles.

Assim como empresas feministas da boca para fora, estamos vivendo um mundo de empresas veganas na propaganda, mas tão cruéis quanto antes.

O ruralista dono de grandes terras, continua seu lucro imenso, tanto vendendo sua carne, como vendendo suas colheitas de monocultura. Tais plantações são tão cruéis com os animais e insetos como a pecuária. Para citar alguns problemas: temos o empobrecimento do solo, a morte da biodiversidade local e o aumento da fome em países de terceiro mundo por conta do foco na exportação de um único produto de suas plantações.

Não estou aqui defendendo que tenhamos que restrigir nossa dieta ainda mais, mas com certeza temos que tomar cuidado para não propagandear empresas que patrocinam essas atrocidades e procurar produtos de agricultura familiar sempre que possível.

No Brasil este problema é ainda mais sério, ainda temos os conflitos rurais entre grandes donos de terra, índios e MST. A ganância de meia dúzia se sobressai aos interesses de pessoas que viviam na terra há muitos mais tempo. Causando a expulsão de comunidades locais, destruição da fauna e flora nativa e exploração de funcionários.

A verdade é que o capitalismo e a exploração da terra, dos animais e dos seres humanos está interconectada, não sendo possível separa-los. Não existe o tal do capitalismo ético, a maximização da mais-valia vai de encontro aos interesses coletivos.

Não há como ser um ativista vegano e fechar os olhos para as mazelas do capitalismo. Não precisamos ser hipocritas e apontar o dedo para quem compre produtos de grandes marcas (dúvido que alguém não compre), atacar ativistas que estão fazendo alguma coisa, mas precisamos erguer a questão: "quais as consequencias éticas que este produto traz a sociedade?" E não somente "este produto é feito de derivados de animais?".