Grande Sertão: veredas

Grande Sertão: veredas é um daqueles livros que você é forçado a ler durante o ensino médio e fundamental, mas que por conta da obrigação acaba não gostando. Dai relê (ou lê sem ser por resumos) e se apaixona. A descrição do autor da cultura local e dos ambientes te fazem querer conhecer cada canto (mesmo a maioria do livro se passar em lugares inventados). E o jeito simples do personagem principal de ver o mundo te faz tirar lições e filosofias para a vida.

Não me sinto capaz de descrever o livro, dado a importância do autor e de tantas análises disponíveis na literatura. Por tanto me aterei ao que achei e as minhas impressões sobre a história.

Guimarães Rosa é famoso por inserir em seus livros termos regionais do sertão. Por isso decidi ler a versão original do livro, sem revisões.

O começo do livro é bem complicado. Não só pela linguagem em si, mas por estar acostumado com os livros atuais, onde há uma introdução mais leve (onde o leitor é situado no tempo e espaço). Me perdi totalmente nas dez primeiras páginas do livro, até perceber que Riobaldo estava contando sua história a mim.

O dialeto utilizado no livro também é um problema, por ter origens no norte de Minas, conhecia algumas palavras por ouvir meu pai dizer. Na grande maioria das vezes tive que utilizar o google para achar o significado de algumas palavras (para outras nem o Google salvava).

A descrição heróica do nordeste é maravilhosa, me fez lembrar de alguns parentes que tenho morando no sertão mineiro e imaginar o quão legal deve ser poder vivenciar aquilo. A vida simples dessas regiões soa muito paradisíaca quando se morou a vida inteira em grandes cidades.

Outro ponto interessante é o uso da cachaça. Nos lugares em que os filmes estadunidenses mostrariam pessoas bebendo uísque, o autor mostrava-os tomando cachaça. Dando um ar de luxo para a bebida, que muita das vezes não damos tanta importância.

Os jagunços são descritos de uma maneira tão simples de se entender, que parecem terem sido escritos nesta década. De fato o tipo de honra entre eles, as características dos personagens e a discussão moral que Riobaldo se encontra são muito comuns em revistas de super-heróis estadunidenses modernas. Nada de heróis à la Superman, mas personagens que tentam justificar cada uma de suas ações, mesmo algumas sendo totalmente idiotas ou imorais.

O livro foi me conquistando e no meio dele já o achava MUITO legal, mas ainda estava longe de outros que gosto (em termos de história, não de técnica). As últimas 15 páginas, porém, fazem o seu chão desaparecer. Só existe você e Riobaldo e você precisa saber o final do livro.

Álias, não vou colocar spoilers, mas meu deus, que final. Só me senti assim em um final de livro em 1984, onde eu simplesmente não podia acreditar em como as coisas terminaram.

Existe uma certa lenda que este livro é muito difícil de se ler, não acredite. Não é um livro do Douglas Adams que tem um vocabulário e estrutura narrativa simples, mas não é nenhum Iracema. Ao terminar o livro é impossível não sentir vontade de viajar pelo sertão e ser um pouco mais nacionalista. A história é uma 'simples' narração da vida de um jagunço, em situações que nunca passaríamos, mas você se sentirá como se estivesse ouvindo um amigo lhe contar sobre sua vida. Então pelo amor de deus, se você não gosta do livro ou nunca leu, jogue fora o seu preconceito e (re)leia!