Existe invenção do zero?

Em 4 de outubro de 1957 a União Soviética lançava o primeiro satélite artificial da terra, o Sputnik. Obviamente que toda a comunidade cientifica voltou seus olhos para tal feito. E como não poderia ser diferente, no Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins(LFA) nos EUA havia diversos interessados no satélite, entre eles Willian Guier e George Weifenbach.

Os dois físicos, depois de uma acalorada conversa na cafeteria do LFA com outros colegas, decidiram captar as ondas que o Sputnik estava emitindo para a Terra. A tarefa inicial foi rapidamente completada e em conversa, os dois colegas decidiram usar as leis do efeito Doppler para medir a velocidade da orbita do satélite e logo depois com outro truque matemático foram capazes de mapear a trajetória do Sputnik.

Repare que até o momento nada novo foi inventado por Guier e Weifenbach. Eles "simplesmente", reaproveitaram teorias antigas e a colocaram em um novo contexto.

Mais tarde, Guier e Weifenbach foram questionados, se era possível fazer o contrario. Sabendo a localização exata do satélite, descobrir em que posição o receptor do sinal está na Terra. A resposta era importante para o futuro das Forças Armadas norte-americana, que estava desenvolvendo mísseis nucleares Polaris que seriam lançados de submarinos. E para isto se concretizar, era necessário saber a posição exata do submarino no mar e isto não era uma tarefa fácil para a tecnologia da época.

Os físicos confirmaram a possibilidade e três anos após o lançamento do Sputnik haviam cinco satélites norte-americanos em órbita fornecendo dados de navegação ao exército.

Em 1983, a União soviética derrubou o voo 007 da Korean Air Lines que adentrou por acidente no espaço aéreo soviético por conta de um defeito no sistema de localização baseado no solo.

Após este acidente, o então presidente americano Ronald Reagan, percebeu que o sistema de localização americano deveria ser um bem comum, para que fosse utilizado por civis a fim de evitar futuros acidentes. A tecnologia foi aberta(viva a liberdade ;D) e nasceu o Global Positioning System, o famoso GPS.

O uso do GPS cresceu e passou a ser utilizado em quase todos os dispositivos móveis atuais.

Com está história podemos ver claramente como funciona a criação de algo novo. Que é, de forma simplista, adaptar/mesclar o que já existe para novos contextos.

Nada na face da Terra é criado do zero, cada invenção nova abre uma porta para outra(frase roubada do Steve Johnson) e com software não seria diferente. Nos sentamos em ombros de gigante a cada linha digitada para criamos algo novo. Utilizamos ferramentas, livres ou proprietárias, para nos auxiliar e provavelmente não seriamos capazes de codificar sem elas(quem aqui manja de compiladores para escrever um gcc sozinho?). Mas ainda sim, há empresas que insistem em patentear* cada bit de código e fecha-lo para “evitar que concorrentes o usem”.

Mas será que eles estão evitando que concorrentes usem, ou estão evitando que hackers sentem em sua casa e usem a tecnologia já existente para criar algo novo e inovador assim como Guier e Weifenbach fizeram?

*Ok, patentear é uma conversa bem complexa, ela é, na teoria, feita para que a empresa que teve que custear o laboratório para a invenção não tenha que competir com uma segunda empresa que não teve o investimento inicial e só precisou copiar o produto. Mas hoje, principalmente nos EUA tem sido utilizada para patentear QUALQUER coisa e depois processar empresas que por acaso utilizam a mesma coisa. A própria Microsoft tem uma patente relacionada ao script SUDO. WTF, meu irmão?

Fonte para a história do GPS: De onde vêm as boas ideias – Steve Johnson