A visão de um Outsider para com a esquerda irlandesa

Não importa em que país do mundo você esteja, sempre haverá luta de classes. Sempre há confronto de interesses nas mais diversas esferas. O trabalhador quer algo, o empregador outra. O comerciante e consumidor também. Isto é algo natural das relações humanas, pois nossos encontros sociais são de trocas, o tempo todo.

A Irlanda não é diferente. O país tem grandes raizes católicas, principalmente pelas revoluções contra o Reino Unido. Enquanto a Irlanda é católica, o Reino Unido segue a igreja protestante da Rainha. Isso fez com que ser católico fosse não só um sinal de rebeldia, mas um sinal de patriotismo. Belfast ainda é dividido em duas comunidades e com ambas tendo religiões diferentes.

Por essa associação do catolicismo a Irlanda, o governo está praticamente unificado com a Igreja. É proíbido, por lei, vender álcool na sexta-feira santa e no natal. Grande maioria das escolas são católicas. A Irlanda há poucos anos passou uma lei que proíbe blasfêmia.

Por conta de toda a religiosidade no governo, assim como no Brasil, é proíbido realizar abortos na ilha. O que força as mulheres com dinheiro a viajarem para o continente ou para o Reino Unido.

O aborto aqui é tratado de maneira mais arcaica que no Brasil: se o feto já está morto ou se a mulher foi estuprada ela não pode fazer aborto de maneira legal na Irlanda. Porém, desde 2013 é possível fazer o aborto se a mulher correr risco de vida.

Por conta desse grande problema social (que está imbutido na constituição) a esquerda na Irlanda concentra boa parte de seu tempo com o assunto.

Existe uma enorme campanha chamada "Repeal the 8th". Andando nas ruas de Dublin é impossível não ver uma pessoa com uma badge ou alguma alusão a campanha.

Outro ponto que a esquerda se foca é o fato de alguns hospitais serem comandados por freiras. O problema nesse caso é o julgamento moral que pacientes passam. A linha entre essa mulher corre risco de vida e precisa abortar para vamos arriscar o parto é definida por esse conselho.

A esquerda na Irlanda também se concentra em outros fatos como: greves em prol de maiores salários, moradia a sem-tetos, direito das minorias e o abuso nos preços do aluguel na região de Dublin.

Diferentemente do Brasil, onde a esquerda é quase puramente acadêmica, isto é, formada por estudantes, aqui temos uma esquerda 'adulta' e mais integrada com a sociedade. Praticamente todo mês há um debate em um pub, onde professores, grevistas e figuras políticas vem debater com o público. Estas reuniões são abertas e normalmente realizadas pelos grupos: "People before profit", "Solidarity"(partido político) e outros grupos menores.

Normalmente a esquerda aqui tenta bater apenas numa tecla por vez, ou ao menos, mais forte em uma tecla. Tentando primeiro resolver um certo problema, antes de migrar para todos os problemas do mundo. Isso provavelmente se dá pelo fato da esquerda não ser baseada em DCE.

Os protestos são bem mais pacíficos que aqueles ocorrendo nos EUA, Brasil ou no continente Europeu. Sinceramente, nunca vi notícias de Black-blocks ou da Gardaí (polícia) tomando atitudes violentas.

Então, como um outsider, vejo a esquerda da Irlanda combatendo os abusos da Igreja no Estado, combatendo problemas sociais (como a descriminização do aborto, moradia para todos). Me parece também que ela é uma esquerda mais velha, formada por pessoas com mais experiência de vida, o que a torna mais metódica e menos generalista. Acho que o Brasil tem muito o que aprender com eles.