A liberdade será descentralizada

Quando se fala em P2P, logo se pensa em todo o tipo de pirataria. Desde a época do emule até a "era moderna" na utilização do bit-torrent. Porém poucos visualizam o poder social dos protocolos desta arquitetura.

Por muitos anos a única forma de se utilizar a internet era com a utilização da arquitetura cliente-servidor. Onde o usuário fazia requisições a websites e poderia ler as informações contidas nele. Logo evoluimos para a web 2.0, uma internet mais colaborativa. Nesta versão 2.0, além de consumir conteúdo os usuários também poderiam colaborar com ele, escrevendo comentários, criando posts em blogs ou até mesmo escrevendo sobre sua vida em redes sociais.

Porém todos esses atos ainda dependem de um ponto central. Dependem da "boa vontade" das pessoas que mantém os servidores com todas as nossas informações. Exemplo, se o Facebook decidir que não gosta de você e ninguém pode escrever sobre você lá, suas informações e qualquer post/mensagem te mencionando desapareceriam do website e possivelmente até da internet por causa da influência da empresa Facebook.

Estas decisões centrais são extremamente complicadas para a liberdade individual. Quem tem o poder de decidir se um texto ou arquivo exposto num website é ilegal? Podemos pegar o exemplo da pirataria, muitas pessoas no nosso país não tem acesso a cultura. Cultura é algo extremamente caro, já procurou um livro ou DVD originais para comprar? Agora, com a internet é possível compartilhar esses conteúdos de maneira gratuíta sem custos para nenhum lado. O que permite pessoas com menor poder aquisitivo tenham acesso a esses itens, ainda que de uma forma ilegal.

Na arquitetura P2P todos os computadores da rede se comportam como servidores e clientes, compartilhando recursos ou dados. A decisão de compartilhar algo ou não, deixa de ser centralizada e passa a ser de todas as pessoas que tem aquele arquivo. Ninguém pode dizer "ei fulano, não compartilhe tal arquivo", por que ninguém consegue conhecer todas as cópias do arquivo e avisar todos os "fulanos".

A distribuição de informação também pode se dar desta forma, caso um documento seja polêmico de mais (como no caso dos vazados pelo Wikileaks), coloca-los em uma rede P2P resolveria a censura de países em volta daquela informação. Pois censurar não seria simples como bloquear o IP de um servidor, mas bloquear o acesso de diversas pessoas a uma rede colaborativa.

De fato essa não é uma ideia nova, a rede Freenet por exemplo foi desenvolvida justamente pensando na privacidade e na disponibilização de conteúdo. Neste protocolo, os usuários podem disponibilizar websites ou informações na rede e a própria rede trata de esconder o produtor e consumidor do conteúdo e garantir a disponibilidade dele (enquanto ele for relevante).

Se o P2P não fosse tão seguro em garantir a disponibildiade de arquivos, pode ter certeza que a indústria de Hollywood já teria achado uma forma de evitar a pirataria (como fez com o Megaupload por exemplo).

O próprio popcorn-time (aplicativo que permite assistir em forma de stream filmes disponibilizados na internet com o protocolo bittorrent) foi oficialmente deixado de lado por seus desenvolvedores originais, mas mesmo assim, os usuários do programa conseguiam continuar assistindo filmes por ele.

Sites, redes sociais e as nuvens podem ser reguladas pelos governos, desenvolvedores e empresas. Mas uma rede P2P é tão complexa que o poder está na mãos de seus usuários. Se todos os usuários de uma rede acharem que um arquivo não merece (por qualquer que seja o motivo) ser compartilhado, ele simplesmente irá sumir da rede. A escolha está verdadeiramente na mão da população.

Esta liberdade pode ser utilizada para coisas ruins? Pode, mas esse é justamente o peso da liberdade. Veja o exemplo de Laranja Mecânica, onde a personagem principal passa por uma lavagem cerebral onde ela se torna incapaz de ser violenta. Ela se tornou uma pessoa boa? Não, ela nem é mais uma pessoa, pois justamente a liberdade de escolha é o que nos separa do reino animal.

Assim, apesar da utilização extrema do P2P para compartilhamento de cultura, também devemos passar a utiliza-lo para compartilhar textos ou outras informações que possam vir a ser censuradas por algum tipo de entidade. De fato devemos dar prioridade a esta rede, pois é a única forma de se alcançar uma liberdade verdadeira, independente de entidades ou pessoas individuais. Ao invés de dependermos de recursos centralizados (humanos ou não), ao utilizarmos P2P passamos a viver uma verdadeira anarquia, dependendo um dos outros. Como um coletivo.

Viva a descentralização, viva a liberdade!