44 cartas do mundo líquido moderno- Zygmunt Bauman

Bauman é um desses filósofos que você é obrigado a ler se quiser entender o mundo moderno por uma visão mais pessimista realista. Enquanto boa parte dos autores modernos se focam nos pontos positivos do capital (o mundo nunca esteve tão conectado, rios de informação em todos os cantos) ou em conservadorismo exagerado (a tecnologia afasta as pessoas, nunca passamos tanto tempo na frente de dispositivos eletrônicos). Bauman analisa a sociedade sem se ater ao amor ao passado, mas ao mesmo tempo clareando os problemas.

O livro "44 cartas do mundo líquido moderno" retrata diferentes assuntos do ponto de vista do autor. Para entendermos o livro precisamos especificar o que ele quer dizer com mundo líquido. Para o filósofo o termo foi cunhado para designar um mundo em constante mudança, passageiro e sem forma definida. Isto se dá tanto pelas nossas relações humanas, quanto para grandes assuntos ou opiniões ("nossos acordos são temporários, passageiros, válidos apenas até novo aviso").

As cartas foram publicas originalmente em uma revista na Itália e retratam desde filmes, livros até carta de leitores. As cartas variam de "nível", algumas sendo deveras interessantes, enquanto outras mais simples, mais "temporais". Uma das melhores cartas na minha opinião é quando ele descreve um pouco o celular: criamos uma sociedade onde estamos sempre conectados, esperamos que todos nos respondem assim que precisarmos, mas ao mesmo tempo não queremos ser incomodados a qualquer momento por qualquer um (por isso selecionamos com quem dividimos contatos e selecionamos o momento de atender certas pessoas). Criando uma sociedade onde "o velho limite sagrado entre o horário de trabalho e o tempo pessoal desapareceu. Estamos permanentemente disponíveis, sempre no posto de trabalho". Pois estamos sempre disponíveis até mesmo para nossos patrões e clientes.

Apesar de não ser uma obra recente, as cartas também tratam o medo do imigrante, que acusa ser por conta da globalização. Antigamente o estranho, estrangeiro, não convivia conosco por mais de alguns dias. Vinha, fazia algum turismo, resolvia seus negócios e ia embora. Hoje, por causa da globalização e a "destruíção" de fronteiras é mais difícil impor barreiras ao diferente. Cada vez mais pessoas não se sentem parte de uma cultura nacional, mas algo menor, fazendo com que nosso vizinho seja completamente diferente de nós. Causando em nós uma constante sensação de inquietação. O medo ao imigrante colocado na mídia é na verdade ao medo ao diferente, de se misturar: "A mixofobia manifesta-se no impulso de construir ilhas de similaridade e identidade em meio a um oceano de diversidade e diferença. As razões da mixofobia são banais, fáceis de entender, mas não necessariamente fáceis de esquecer."

Enfim, os temas são vários, todos de um ponto de vista sóbrio. Bauman é normalmente definido como pessimista, mas diria que ele é um realista. Seus textos não vão na direção "estamos todos perdidos", mas aponta aonde vê doenças. As cartas são uma boa pedida para quem quer entender mais do autor.